Durante o Summit ESG 2024, promovido pela Exame, especialistas em sustentabilidade, negócios e bioeconomia discutiram o papel estratégico que o Brasil pode assumir no contexto global de nearshoring — prática que consiste em trazer cadeias produtivas para mais perto dos centros de consumo, reduzindo riscos logísticos e ambientais. A conclusão do painel inaugural do evento foi unânime: o país tem uma janela de oportunidade única para se tornar referência em produção limpa, valorização local e fornecimento estratégico.
Participaram do debate nomes como Estevan Sartorelli, co-CEO da Dengo Chocolates; Velma Gregório, fundadora da ÓGUI; e Ricardo Assumpção, sócio da EY e líder de ESG na América Latina. A mediação ficou por conta de Rodrigo Caetano, editor de ESG da Exame. Os convidados analisaram como a bioeconomia, as energias renováveis e a descentralização de fornecedores podem posicionar o Brasil como protagonista na reorganização das cadeias globais.
Nearshoring: tendência acelerada pela crise
A pandemia de Covid-19 e os conflitos geopolíticos expuseram vulnerabilidades profundas nas cadeias de suprimentos globalizadas. O resultado foi uma corrida por soluções mais próximas, transparentes e resilientes. Nesse cenário, o nearshoring desponta como alternativa viável: além de reduzir riscos e prazos logísticos, diminui a pegada de carbono e fortalece as economias locais.
Para Sartorelli, o modelo da Dengo já nasce alinhado a essa filosofia. A empresa, que atua com pequenos e médios produtores de cacau no Brasil, optou por uma rede de fornecimento regionalizada desde o início. “Não precisamos ser especialistas em sustentabilidade para entender que cadeias próximas reduzem impacto ambiental e riscos geopolíticos”, afirmou.
Energia limpa como vantagem competitiva
Velma Gregório, da ÓGUI, destacou que o Brasil, embora ainda não esteja entre os líderes do nearshoring, tem condições únicas para avançar rapidamente. Um dos principais trunfos é a abundância de energia renovável, fator determinante para empresas globais que buscam reduzir emissões e construir cadeias produtivas mais verdes.
“O Brasil pode se tornar o coração produtivo de cadeias de valor com baixa emissão de carbono. Mas isso exige investimento em infraestrutura, educação e acordos comerciais”, explicou Velma. Ela comparou a situação brasileira com a do México, que já é amplamente integrado ao mercado dos EUA graças à sua proximidade geográfica e política comercial ativa.
A materialidade financeira da sustentabilidade
Segundo os participantes do painel, a transição para cadeias mais curtas e sustentáveis não é apenas uma pauta ambiental ou social — é uma decisão de negócios. Velma argumentou que o nearshoring representa uma oportunidade concreta de materializar financeiramente a sustentabilidade, ao conectar as necessidades de mitigação de riscos à geração de valor local.
Ricardo Assumpção reforçou essa visão ao afirmar que, embora os aspectos climáticos ainda não sejam o principal motivador das mudanças nas cadeias globais, eles inevitavelmente se tornarão. “As emissões ainda são pouco consideradas nas decisões logísticas, mas isso vai mudar. O Brasil, por emitir menos gases de efeito estufa na produção, tem uma vantagem competitiva clara”, disse.
O papel da bioeconomia na reorganização global
Além da energia limpa, outro eixo de vantagem brasileira é a bioeconomia, principalmente nos biomas da Amazônia, Cerrado e Caatinga. No entanto, segundo Ricardo, dos cerca de 350 produtos potenciais da bioeconomia brasileira, apenas 12 a 13 estão sendo utilizados em escala. O país precisa desenvolver modelos de negócios sustentáveis que escalem essas iniciativas, conectando oferta local a demandas globais.
Como exemplo, ele citou o EY Nature Hub, um centro lançado pela consultoria para fomentar cadeias de suprimento sustentáveis com base na biodiversidade brasileira. A proposta é estudar e aplicar modelos de produção em larga escala, com impacto positivo na economia, meio ambiente e inclusão social.
Acordos comerciais e infraestrutura: entraves e soluções
Para que o Brasil possa integrar efetivamente cadeias regionais de abastecimento, é necessário superar desafios estruturais. Isso envolve desde regulação aduaneira e acordos bilaterais, até investimentos em logística e qualificação profissional. Velma alertou que sem segurança jurídica e infraestrutura mínima, o país continuará sendo subaproveitado na geopolítica do nearshoring.
Outro ponto levantado foi o papel das agências de promoção de exportações. Elas podem servir como ponte entre produtores locais e mercados internacionais, consolidando a imagem do Brasil como fornecedor confiável, sustentável e competitivo.
Consumo consciente: o papel do cidadão
Para Sartorelli, o avanço do nearshoring também depende de mudança de hábitos por parte dos consumidores. Ele destaca que o incentivo ao comércio local — do mercadinho de bairro à escolha por produtos com menor pegada ambiental — é um componente fundamental para fortalecer cadeias produtivas regionais. “As escolhas individuais ajudam a gerar impacto coletivo. O consumo responsável é uma ferramenta de transformação”, disse.
No caso da Dengo, a prática já mostra resultados. Em 2023, a empresa pagou mais que o dobro do valor de mercado para seus fornecedores de cacau, permitindo a distribuição justa da renda e o fortalecimento da agricultura familiar. “Compromisso local é chave para gerar impacto local”, afirmou o CEO.
Oportunidade histórica até a COP30
Os especialistas acreditam que o Brasil vive um momento crucial de reposicionamento. Com a COP30 marcada para 2025 em Belém (PA), o país pode usar o evento como vitrine global para atrair capital verde, parcerias comerciais e tecnologia.
Assumpção vê a COP como um divisor de águas: “Temos uma janela de oportunidade histórica. O mundo precisa de soluções e o Brasil tem ativos socioambientais únicos. Mas é preciso construir modelos viáveis, mensuráveis e replicáveis”.


