MyPausa: o movimento que quer transformar o cuidado com a menopausa no Brasil

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Apesar de atingir quase metade da população, a menopausa ainda é tratada com silêncio e negligência no Brasil. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) revelam que até 2030 haverá 1,2 bilhão de mulheres na menopausa ou pós-menopausa no mundo, com 47 milhões entrando nessa fase anualmente. No Brasil, a lacuna de políticas públicas e o despreparo do sistema de saúde contribuem para tornar essa transição um desafio físico, emocional e social.
Para mudar esse cenário, a ginecologista e pesquisadora Fabiane Berta, fundadora do Grupo Illumina, lançou em 2023 o movimento MyPausa, que visa promover uma reforma estrutural no cuidado à saúde da mulher nessa fase da vida. Entre as ações, destaca-se a realização do primeiro levantamento nacional sobre menopausa, que vai mapear dados epidemiológicos, sintomas, acesso à saúde, qualidade de vida e percepção sobre o tema em todas as capitais brasileiras.
Com aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Alemão Oswaldo Cruz e da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa do Ministério da Saúde, o estudo foi registrado na plataforma internacional Clinical Trials. Serão entrevistadas 1.592 pessoas, entre mulheres cisgênero e homens trans com idades entre 35 e 65 anos, nas 27 capitais brasileiras. A coleta de dados deve começar ainda em 2025.

Menopausa ainda é tabu — e negligenciada

Um estudo recente da consultoria Korn Ferry, em parceria com a Vira Health, revela que 47% das mulheres relatam sintomas que impactam diretamente a produtividade no trabalho. Ondas de calor, insônia, alterações cognitivas, secura vaginal e queda na libido são apenas alguns dos sintomas que, somados à falta de acolhimento médico e social, resultam em isolamento, angústia e perda de qualidade de vida.
Segundo Fabiane, a ideia do MyPausa é quebrar o silêncio, combater o etarismo e formar profissionais para lidarem com esse tema com sensibilidade e ciência. “A menopausa não é só um fenômeno biológico, mas social. É preciso enxergar o todo — emocional, familiar, sexual, profissional — e dar a essas mulheres a escuta que elas nunca tiveram”, afirma.

Da infância inventiva ao empreendedorismo com impacto

Filha de um mecânico e de uma artista plástica, Fabiane cresceu em um ambiente onde criatividade e inquietação eram estímulos constantes. Desde cedo dizia que teria uma ideia que mudaria o mundo. Quando escolheu a Medicina, buscava justamente esse lugar de transformação.
Mas a realidade da profissão a fez questionar sua permanência. “Consultas de cinco minutos, diagnósticos apressados e um sistema que não escutava”, conta. Chegou a pensar em abandonar a medicina e abrir uma esmalteria para criar um espaço de acolhimento feminino. Foi por meio do estudo sobre terapia hormonal e suas implicações cognitivas e afetivas que reencontrou o propósito profissional — e decidiu transformar esse conhecimento em projeto social e de impacto.
Em 2020, fundou o Grupo Illumina, que hoje une uma clínica voltada à saúde da mulher e um instituto de ensino e pesquisa. O diferencial é a anamnese de pertencimento, metodologia que analisa como a paciente se relaciona com sua cultura, ambiente social, trabalho e história pessoal.
> “Uma mulher na menopausa não sofre apenas com fogachos. Ela pode estar vivendo conflitos emocionais, desafios na carreira, problemas no casamento. Tudo isso precisa entrar na escuta médica”, destaca.

MyPausa: ciência, escuta e transformação

Com a vivência clínica como ponto de partida, o MyPausa se transformou em uma rede nacional, formada por sete coordenadores regionais e dezenas de médicos e pesquisadores, 90% deles mulheres. A proposta vai além da pesquisa: defende a inclusão da terapia hormonal no SUS, a capacitação médica contínua e a construção de um sistema de saúde mais justo para as mulheres de meia-idade.
Fabiane destaca que um dos maiores obstáculos foi ser ouvida — especialmente como mulher jovem. “Ouvi frases como ‘você tem de idade o que eu tenho de carreira’. Mas quando se tem propósito, dados e resiliência, você constrói pontes.”
Montar uma equipe multidisciplinar, com cientistas, gestores e comunicadores, foi essencial para estruturar o movimento. “É ingênuo pensar que podemos fazer tudo sozinhas. Enquanto estudo neurociência, minha equipe cuida da gestão. Cada um contribui com sua força”, explica.

Impacto econômico e social: por que investir na menopausa

Segundo a consultoria Frost & Sullivan, a perda global de produtividade causada por sintomas da menopausa ultrapassa US$ 150 bilhões ao ano. No Brasil, o mercado de produtos e serviços voltados a esse público movimentou R$ 1,88 bilhão em 2024 e pode alcançar R$ 3 bilhões até 2030, de acordo com a Grand View Research.
“O impacto é gigantesco e atinge a base da sociedade: mães, líderes, professoras, médicas, jornalistas. Tratar a menopausa é cuidar de metade do país”, resume Fabiane.
A empresária também enxerga potencial de negócios sustentáveis e com propósito. “Há capital disponível. O que falta são ideias conectadas com causas reais. Quem empreende com propósito e dados sólidos tem espaço.”

O futuro da saúde feminina começa com escuta

O MyPausa se propõe a virar a chave no cuidado com a menopausa no Brasil. Ao trazer ciência, escuta ativa e protagonismo feminino para o centro da pauta, o movimento quer romper o ciclo histórico de abandono e abrir novas perspectivas para milhões de mulheres.
Fabiane encerra com uma frase que resume sua visão:
> “Quando você escuta uma mulher, começa a curar muitas outras.”

Morango com Hortelã
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