Empreender ainda representa um caminho de resistência para muitas pessoas LGBTQIA+. A discriminação no mercado de trabalho formal empurra indivíduos para abrir seus próprios negócios — porém, eles enfrentam barreiras estruturais: acesso a crédito desigual, redes de contato limitadas, preconceito explícito e invisível, além da falta de políticas públicas direcionadas. Este artigo reexamina os obstáculos existentes, apresenta dados recentes no Brasil e destaca iniciativas positivas que buscam apoiar esse ecossistema.
O cenário atual: por que empreender?
Segundo estudo do Sebrae divulgado em 2025, aproximadamente 24% das pessoas LGBTQIAPN+ com 16 anos ou mais já lideram negócios próprios no país; outros 11% estão em fase de criação de empreendimento e 20% pretendem empreender nos próximos três anos — ou seja, mais da metade desse público está diretamente envolvido com iniciativas empresariais.
Outro dado relevante: dentro da comunidade LGBTP, as pessoas trans ou travestis são as que mais empreendem — 34% já possuem negócio próprio, e 70% demonstram interesse em empreender.
Esses índices demonstram que o empreendedorismo é uma estratégia frequente de autonomia econômica, afirmação e sobrevivência para essa parcela da população, especialmente diante das barreiras de acesso ao mercado formal.
Barreiras estruturais e invisíveis
1. Acesso restrito a recursos financeiros e crédito
Muitos empreendedores LGBTQIA+ partem de contextos de vulnerabilidade econômica, com menor acumulação de patrimônio ou histórico bancário limitado. Isso dificulta a obtenção de microcrédito ou investimento inicial para formalizar e escalar negócios.
Além disso, em levantamentos como o realizado pelo Instituto +Diversidade, 41% das pessoas trans apontaram “falta de rede de contatos” como uma das maiores barreiras para empreender.
2. Discriminação explícita e implícita
No ambiente empresarial ou como cliente, empreendedores LGBTQIA+ ainda relatam experiências de rejeição, comentários ofensivos, assédio e até tentativa de evangelização por parte de clientes. Esses episódios afetam reputação, autoestima e confiança para expandir o negócio.
No ambiente corporativo, pesquisas mostram que cerca de 20% dos colaboradores LGBTQIA+ afirmaram já ter sofrido discriminação, assédio ou intimidação em empresas.
3. Falta de capacitação e informação de mercado
Muitos empreendedores LGBTQIA+ ingressam no universo dos negócios por necessidade, sem formação formal ou suporte. A falta de conhecimento em marketing, finanças, gestão e uso de dados reduz suas chances de competitividade.
4. Invisibilidade e risco de perda de mercado
Empreendimentos que assumem identidade LGBTQIA+ correm o risco de perder clientes contrários à causa ou sofrer boicotes. Muitos empreendedores temem reduzir seu público ou chamar atenção negativa.
Por outro lado, há o paradoxo: essa identidade também pode gerar engajamento com o público LGBTQIA+, que representa um mercado consumidor expressivo. Por exemplo, estudo da NIQ revela que o ticket médio de compras online por domicílio LGBT+ é 27% superior ao dos demais domicílios.
Case emblemático: Carol Romeiro e o projeto Transcender
Carol Romeiro, pessoa transexual e empresária do setor de beleza no Rio de Janeiro, abriu seu próprio salão em 2022 após perder o emprego formal e enfrentar risco de voltar à prostituição para sobreviver.
Mesmo à frente de seu negócio, ainda lida com situações vexatórias: clientes querem impor convicções religiosas, questionam seu gênero ou tentam converter sua identidade. Esses episódios mostram que a luta não termina com a formalização da empresa.
Carol foi uma das participantes da primeira edição do projeto Transcender — Empreendedorismo LGBT+, promovido pelo Sebrae no Rio de Janeiro com 51 participantes. Houve palestras sobre inteligência LGBT+, liderança e entrega de certificados.
O Transcender oferece capacitações focadas em planejamento, finanças, marketing, inovação e mentorias personalizadas para empreendedores LGBTQIA+.
Além disso, outras iniciativas complementam esse ecossistema:
– O programa do Sebrae-RJ com 54 horas de capacitações e consultorias para MEIs LGBTQIA+.
– Projetos estadual ou regionais, como o E-Vale, em Santa Catarina, que oferece cursos, mentorias e ajuda de custo para empreendedores LGBTQIA+.
– O relatório “Inclusão econômica e geração de renda da população LGBTQIA+” (Instituto Matizes / Fundo Positivo), que mapeia desafios, fontes de financiamento e impactos de iniciativas no Brasil.
Essas ações mostram que existe uma articulação crescente para criar pontes entre a comunidade empreendedora e o apoio institucional.
Caminhos para fortalecimento — o que é urgente
Para superar os obstáculos presentes, é necessário um esforço conjunto entre o poder público, entidades de apoio, iniciativa privada e a própria comunidade empreendedora. Algumas sugestões:
– Expandir programas como Transcender para outras cidades e estados, com recursos orçamentários fixos para apoiar empreendedores LGBTQIA+.
– Criar linhas de microcrédito voltadas ao perfil e especificidades desse público, com juros menores e exigências flexíveis.
– Estimular capacitações focadas no uso de tecnologia, marketing digital, finanças e planejamento estratégico.
– Incentivar redes de networking e mentorias — conectar empreendedores LGBTQIA+ com agentes de mercado, investidores e clientes potenciais.
– Garantir políticas antidiscriminação nas compras públicas e no ambiente empresarial, para que empresas lideradas por pessoas LGBTQIA+ tenham acesso a licitações e contratos.
– Promover visibilidade de casos de sucesso, amplificando narrativas positivas e inspiradoras que possam servir de referência para novos empreendedores.
– Incentivar empresas privadas e investidores a adotar critérios de diversidade em seus ecossistemas de parcerias e startups.
Conclusão
O empreendedorismo na comunidade LGBTQIA+ no Brasil emerge como uma estratégia vital de liberdade, segurança econômica e afirmação identitária. Mas o caminho ainda é árduo: a discriminação estrutural, a fragilidade de redes de apoio e o acesso limitado a recursos colocam obstáculos constantes. Os dados recentes mostram sinais de progresso, mas cabe à sociedade, ao poder público e ao setor privado materializar políticas reais e duradouras para que o ato de empreender deixe de ser um ato de resistência e se consolide como opção viável e digna para todos.
Fontes
– cartacapital.com.br
– agenciasebrae.com.br
– institutomatizes.com.br
– institutomaisdiversidade.com.br
– agenciabrasil.ebc.com.br
– cnnbrasil.com.br
– blog.pagseguro.uol.com.br
– sebraerj.com.br
– rj.agenciasebrae.com.br
– Agência Sebrae
– Cartaxa Capital
– CNNT Brasil
– Sebrae RJ


