Bonecas hiper-realistas, que mais se parecem com bebês de verdade, estão transformando o mercado infantil e o universo dos colecionadores no Brasil. Chamadas de bebês reborn, essas peças artesanais vêm ganhando espaço como fonte de renda, terapia e empreendedorismo criativo. O fenômeno, que já movimenta mais de R$ 1 bilhão ao ano no país, atrai tanto empreendedoras especializadas na confecção das bonecas quanto influenciadoras digitais que usam sua audiência para criar conteúdos emocionais e comerciais com os reborns.
Criados inicialmente como obras de arte por artistas plásticos nos Estados Unidos, os bebês reborn chegaram ao Brasil nos anos 2000. No entanto, foi com o avanço das redes sociais e a popularização de vídeos de cuidado com essas bonecas que o mercado explodiu. Hoje, o segmento representa cerca de 11% do mercado de bonecas no Brasil, e não para de crescer.
Uma combinação de afeto, estética e estratégia digital
Um dos nomes que simboliza essa ascensão é o da influenciadora Mariana Nunes, que possui mais de 400 mil seguidores no TikTok e Instagram. Seus vídeos mostrando a rotina de cuidados com seus bebês reborn viralizaram e chamaram atenção de marcas de moda infantil, brinquedos e até de psicólogos. Mariana transformou o que era um hobby em negócio. “As pessoas se encantam. Algumas acham estranho no início, mas depois entendem que é uma forma de expressar amor e afeto”, explica.
Outro caso é o da artesã Julia Brandão, que produz reborns sob encomenda com preços que variam entre R$ 2.000 e R$ 10.000, dependendo do nível de realismo e dos materiais utilizados. A empreendedora, que atua em São Paulo, realiza entre 6 e 10 vendas mensais, além de workshops de pintura e montagem para quem quer aprender a técnica.
“Tem muito estudo envolvido. Não é só pintar uma boneca. É entender proporções, materiais, técnicas de enraizamento de cabelo, peso, textura. Cada peça leva de 30 a 60 horas de trabalho. É arte e paixão”, afirma Julia.
Lojas especializadas e acessórios expandem o ecossistema
Com a alta na demanda, surgem também lojas especializadas em acessórios, roupas e carrinhos para reborns, como a “Minha Infância”, em Belo Horizonte. A marca viu seu faturamento crescer 40% em 2024 e já tem e-commerce com entrega nacional.
Segundo a proprietária, Renata Lima, o público é variado: mães que perderam filhos, mulheres com dificuldades para engravidar, crianças, colecionadores e até idosos em lares de repouso. “Nosso atendimento é sensível. Há histórias emocionantes todos os dias. Mas também há um público que compra por estética ou hobby”, conta.
Além do comércio de produtos, há uma tendência crescente de serviços agregados, como ensaios fotográficos com reborns, ateliês para customização e até certidões simbólicas de nascimento — todas iniciativas que agregam valor emocional à experiência de ter uma boneca reborn.
Influência digital como motor de vendas
No TikTok, a hashtag #bebereborn soma mais de 1 bilhão de visualizações globalmente, com vídeos que variam entre unboxings, rotinas maternas simuladas e tutoriais de cuidados. No Brasil, influencers como Giovana Reborn e Mundo Reborn da Bia acumulam milhões de interações e ajudam a manter o interesse alto entre crianças e adultos.
Essa presença online tem efeito direto no comércio. Segundo levantamento da Plataforma E-commerce Brasil, houve um aumento de 36% nas buscas por “bebê reborn” em marketplaces nacionais entre janeiro de 2023 e janeiro de 2025.
A conexão emocional que esses conteúdos despertam é a base do sucesso, de acordo com o consultor de branding Roberto Kanter (FGV). “É um mercado de nicho, mas altamente envolvente. O segredo está em comunicar propósito, criar empatia e oferecer produtos personalizados. A estética é importante, mas é a narrativa que fideliza”.
Entre o emocional e o ético: o uso terapêutico e os cuidados necessários
A psicanalista Carolina Delboni destaca que os reborns podem sim ter papel terapêutico, especialmente em casos de luto perinatal, depressão ou Alzheimer. “São objetos de transferência emocional, e isso não é negativo. Desde que seja acompanhado, pode ajudar a tratar traumas e solidão”.
Por outro lado, ela alerta: “O problema está quando a fantasia suplanta a realidade. O cuidado com o bebê reborn não pode substituir vínculos humanos reais. Há uma linha tênue que deve ser observada”.
Muitos psicólogos e educadores defendem que, para crianças, os reborns podem ser usados com responsabilidade, estimulando empatia, imaginação e cuidado — desde que os pais orientem o uso e compreendam que é brinquedo e não substituto emocional.
Como empreender com reborns: o que é preciso?
Para quem deseja ingressar nesse mercado, é necessário:
– Conhecimento técnico em artesanato, pintura e materiais (vinil siliconado, tinta importada, entre outros);
– Capacidade de personalização e atendimento personalizado;
– Presença digital estratégica em Instagram, TikTok e marketplaces;
– Atendimento empático e humanizado;
– Compreensão das necessidades do público (terapêutico, estético ou colecionismo).
Hoje, o setor já possui cursos técnicos presenciais e online, com profissionais oferecendo certificações artesanais e manuais exclusivos. É possível começar com um investimento inicial de R$ 3.000 a R$ 5.000, dependendo dos materiais, e alcançar margem de lucro de até 300% por unidade vendida, segundo levantamento da Associação Nacional do Artesanato de Luxo.
Fontes :
– Revista PEGN
– Estadão E-Investidor: “Como ganhar dinheiro com bebê reborn”
– Mundo RH: “Debate ético e emocional sobre o uso de reborns”
– E-commerce Brasil: Relatório de buscas 2024
– FGV – Roberto Kanter (entrevista pública)
– Associação Nacional do Artesanato de Luxo


