A moda circular ganha força com recommerce
O recommerce — revenda de produtos usados ou semi-novos — tem se consolidado como estratégia estratégica para marcas e consumidores, integrando sustentabilidade e economia no setor da moda circular. No painel “Recommerce: sustentabilidade e geração de negócios”, realizado no ProXXIma 2025, representantes de Enjoei e Fashion Revolution Brasil discutiram os principais desafios para que marcas, plataformas e consumidores construam credibilidade e promovam práticas circulares reais.
Construindo confiança e cultura de uso
A Enjoei, plataforma pioneira no Brasil, nasceu em 2009 com foco no aspecto estético, humor e comunidade — e só depois abordou o tema “usado”. “Vencemos o preconceito… apostando na estética, no humor e na comunidade” — revelou Ana Luiza McLaren, vice-presidente. Hoje, a plataforma se sustenta em elementos como boas fotos, descrição cuidadosa dos itens e histórias pessoais, fundamentais para fidelizar consumidores e desmistificar o conceito de segunda mão.
Marcas assumem responsabilidade ativa
Segundo Fernanda Simon da Fashion Revolution Brasil, o recommerce não deve ser apenas um componente periférico. Marcas precisam criar canais próprios de reuso, ofertas de recompras e iniciativas de upcycling. Grandes grupos globais — como Inditex, Ikea, Shein e Rabat — já implementam plataformas de recommerce, reforçando imagem sustentável e gerando renda adicional. No Brasil, há potencial ainda pouco explorado pelo varejo: iniciativas locais devem se basear em confiança, clareza contratual e logística eficiente.
Infraestrutura: tecnologia e logística como pilares
O recommerce exige estrutura robusta: sistemas de pick-up, certificação de produto, garantia e suporte pós-venda. Um relatório da BBCMG indica que a logística reversa e a rastreabilidade são barreiras reais à moda circular no Brasil. Superar esses desafios requer coordenação entre plataformas, marcas e políticas públicas, para alcançar escalabilidade e eficiência.
Consumo consciente: principal alavanca do crescimento
Dados globais mostram expansão acelerada: em 2024, o mercado de recommerce chegou a US$ 100 bi — cinco vezes mais rápido que o varejo tradicional — e pode alcançar US$ 276 bi até 2028 . No Brasil, o BCG projeta um mercado de segunda mão avaliado em R$ 78 bi até 2027. Isso se deve à combinação de fatores: aumento dos preços, maior valorização da sustentabilidade e mudança comportamental entre millennials e jovens da Geração Z — 85% compram produtos usados e 78% buscam economia.
Legislação e mercado: pontos de atenção
O recommerce legal envolve questões específicas de garantia, devolução e direitos dos consumidores, que diferem em transações C2C e B2C. No Brasil, ainda há lacunas na regulamentação do segmento circular. Marcas que investem em recommerce devem aproximação com órgãos regulatórios, criando diretrizes claras para proteger o consumidor e fortalecer a confiança nos marketplaces.
Oportunidades para marcas brasileiras
Plataformas próprias de recompra — chamadas branded recommerce — oferecem vantagens competitivas: fortalecimento da marca, melhor controle de qualidade e redução de desperdício. Criar canais internos de recommerce também permite às marcas integrar suas iniciativas ESG, usando dados para aprimorar produtos e fidelizar clientes engajados com propósito.
Aprendizados do exterior e iniciativas globais
Eventos como o ProXXIma refletem o amadurecimento do tema. Iniciativas internacionais — como o Recommerce Atacama, no Chile — demonstram impacto sustentável, provando que até a recuperação de peças em lixões pode gerar renda e conscientização. A tendência é que essas histórias inspirem o desenvolvimento de operações locais e programas anti-desperdício no Brasil.
Conclusão: recommerce como estratégia de longo prazo
O recommerce é parte essencial da transição para uma moda circular, que combina consumo responsável, tecnologia e compromisso com o meio ambiente. Marcas precisam incorporar estruturas logísticas e digitais, educar consumidores e navegar o ambiente legal. O mercado está em rápida expansão, mas requer maturidade e transparência para ser sustentável e rentável.
Fontes: Meio & Mensagem, Enjoei, Fashion Revolution Brasil, Ellen MacArthur Foundation, ThredUp, BCG, BBCMG, OfferUp, El País (Chile), El País (Legal), Wikipedia, academia.org


