Realidade e Contrastes no Acesso à Saúde
O acesso à saúde de qualidade permanece um dos principais anseios da população brasileira, conforme reiteradas pesquisas do DataSenado e de outros institutos de opinião. Apesar dos avanços do Sistema Único de Saúde (SUS), persistem grandes diferenças entre o atendimento público e o privado no país. Enquanto aproximadamente 160 milhões de brasileiros dependem exclusivamente do SUS, outros 20% contam com planos privados, que garantem acesso mais rápido e a tecnologias avançadas, criando um abismo na equidade dos cuidados.
Os dados revelam um paradoxo preocupante: tanto o setor público quanto o privado dispõem de orçamentos semelhantes, mas os resultados em termos de qualidade divergem drasticamente. No setor privado, exames e procedimentos são frequentemente realizados em excesso, impulsionando custos e, por vezes, submetendo pacientes a riscos desnecessários, como exposições repetidas à radiação. Já no sistema público, a defasagem tecnológica de equipamentos compromete diagnósticos e a efetividade dos tratamentos, prejudicando milhões de pessoas que dependem da estrutura do SUS.
A desigualdade no acesso se evidencia também nas filas para exames, nos longos tempos de espera e na precariedade de muitos hospitais públicos, onde instrumentos e aparelhos ultrapassados são parte da rotina. O desafio é duplo: combater o desperdício e os excessos na saúde suplementar e, ao mesmo tempo, investir na modernização e na gestão eficiente da rede pública, para garantir o direito fundamental à saúde para todos.
O Impacto da Defasagem Tecnológica e a Urgência da Inovação
A falta de atualização do parque tecnológico em hospitais e clínicas públicas representa um dos principais obstáculos à qualidade dos diagnósticos e tratamentos no Brasil. Equipamentos como tomógrafos, aparelhos de raio-X, autoclaves e camas hospitalares muitas vezes estão obsoletos ou funcionando precariamente, dificultando o trabalho das equipes de saúde e, principalmente, colocando em risco a segurança dos pacientes.
Esse cenário se agrava quando hospitais filantrópicos, como as Santas Casas de Misericórdia, responsáveis por grande parte do atendimento público, continuam recebendo recursos com base em tabelas de remuneração desatualizadas. Sem poder investir em equipamentos novos ou em manutenção adequada, muitos recorrem a soluções improvisadas para manter aparelhos funcionando, criando os chamados “equipamentos fantasmas”, que carecem de validação técnica e podem comprometer resultados clínicos.
A modernização tecnológica é fundamental para melhorar a precisão dos diagnósticos e otimizar recursos, evitando exames desnecessários e tratamentos ineficazes. Iniciativas recentes do Ministério da Saúde, como o Programa Nacional de Qualificação da Assistência Hospitalar, buscam incentivar a aquisição de tecnologias inovadoras, mas os avanços ainda são insuficientes frente ao tamanho da demanda nacional. A urgência de políticas públicas voltadas à renovação do parque tecnológico hospitalar é consenso entre gestores e especialistas em saúde.
Oportunidades para a Indústria Nacional e Barreiras de Competitividade
O setor produtivo brasileiro já demonstrou capacidade para desenvolver e fabricar dispositivos médicos e hospitalares com padrão internacional de qualidade. Empresas nacionais, apoiadas por centros de pesquisa, vêm inovando em equipamentos e soluções para o setor, muitas vezes utilizando inteligência artificial, análise de dados e automação para ampliar o acesso e a eficiência dos serviços de saúde.
Entretanto, obstáculos regulatórios e fiscais dificultam a expansão da indústria local. Atualmente, a rede pública não paga impostos para importar equipamentos, mas arca com todos os tributos ao adquirir produtos de fabricantes brasileiros. Isso cria um ambiente desfavorável à inovação nacional, desestimula investimentos e reduz a competitividade do setor frente a concorrentes estrangeiros. Estudos da Associação Brasileira da Indústria de Dispositivos Médicos (ABIMO) apontam que essa distorção tributária precisa ser revista para impulsionar a produção local e gerar empregos de qualidade.
Paralelamente, linhas de financiamento público para inovação, como o BNDES e a Finep, têm papel importante, mas dependem de uma política de compras públicas que valorize as soluções produzidas no Brasil. A integração entre academia, indústria e governo é vista como estratégica para fortalecer o ecossistema de inovação em saúde, ampliando a oferta de equipamentos modernos e acessíveis para hospitais públicos e privados.
Caminhos para uma Saúde Mais Inovadora e Inclusiva
O avanço da inovação na saúde depende, sobretudo, de uma mudança de postura do poder público e de gestores hospitalares em relação ao parque tecnológico nacional. Incentivar a aquisição de produtos fabricados no Brasil, revisar a política tributária e modernizar as tabelas de remuneração do SUS são medidas urgentes para criar um ambiente mais favorável ao desenvolvimento de soluções inovadoras.
A adoção de tecnologias emergentes, como inteligência artificial, telemedicina e big data, também pode contribuir para otimizar processos, reduzir custos e melhorar o acesso da população a diagnósticos precisos e tratamentos personalizados. Investimentos em capacitação profissional e na digitalização dos serviços de saúde são essenciais para garantir que a inovação alcance todas as regiões do país, especialmente as mais vulneráveis.
Por fim, é necessário reconhecer o papel estratégico das Santas Casas e hospitais filantrópicos, responsáveis por cerca de 60% do atendimento hospitalar no Brasil. Com apoio financeiro e políticas de incentivo à inovação, essas instituições podem liderar o processo de modernização do setor, promovendo um sistema de saúde mais eficiente, inclusivo e sustentável para todos os brasileiros.
Fontes:
DataSenado, Ministério da Saúde, Associação Brasileira da Indústria de Dispositivos Médicos (ABIMO), Agência Brasil, BNDES, Finep


