A ofensiva contra o ESG: entre pressões políticas e a sobrevivência empresarial

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O avanço e a reação ao ESG

Nos últimos 20 anos, o conceito de ESG — Ambiental, Social e Governança — transformou-se em um dos pilares da gestão empresarial global. O movimento, impulsionado pelo Pacto Global da ONU em 2000 e consolidado com o relatório Who Cares Wins em 2004, buscava alinhar decisões corporativas a metas de sustentabilidade e responsabilidade social. De promessa de reputação e atração de capital, passou a ser encarado como ferramenta de mitigação de riscos regulatórios, ambientais e sociais.
Entretanto, a partir de 2023, principalmente nos Estados Unidos, surgiu uma reação organizada, liderada por grupos conservadores que enxergam o ESG como “instrumento político”. Essa ofensiva, fortalecida durante o governo Donald Trump e mantida por lideranças republicanas, passou a impor barreiras regulatórias a fundos de investimento e a criticar práticas empresariais consideradas “progressistas”.

A crítica conservadora ao ESG

O argumento central dos opositores é que o ESG compromete o dever fiduciário das empresas, desviando recursos de setores tradicionais — como combustíveis fósseis, mineração, tabaco e armas — para agendas ambientais e sociais. Estados como Flórida e Texas aprovaram legislações que proíbem fundos de pensão de usarem critérios ESG em seus investimentos. Em 2023, mais de 165 projetos de lei anti-ESG foram apresentados em 37 estados norte-americanos, todos com maioria republicana.
Para políticos como Ron DeSantis, governador da Flórida, o ESG ameaça a “liberdade econômica” ao priorizar causas sociais acima do lucro. Já Mike Pence, ex-vice-presidente de Trump, classificou o movimento como “estratégia perniciosa”, alegando que seria uma forma de impor ideologias progressistas sem aprovação popular.

Empresas entre a pressão e a reputação

Esse movimento conservador gerou efeitos práticos: grandes gestores globais recuaram. Em 2024 e 2025, BlackRock, JPMorgan e State Street deixaram coalizões como a Net Zero Asset Managers e a Climate Action 100+, que reuniam investidores comprometidos com descarbonização. O presidente da BlackRock, Larry Fink, declarou em 2023 que não usaria mais o termo ESG, por ter se tornado uma “arma política”.
Paralelamente, relatórios do Wall Street Journal indicam queda no uso do termo ESG em balanços corporativos: de 155 menções no índice S&P 500 no fim de 2021 para apenas 61 no segundo trimestre de 2023. A retração reflete receio de críticas públicas e o fenômeno apelidado de greenhushing, quando empresas evitam divulgar metas sustentáveis para não se tornarem alvo de ataques.

Os limites e contradições do ESG

Pesquisas recentes reforçam parte das críticas. Um estudo publicado no Review of Accounting Studies mostrou que fundos autodenominados ESG, entre 2010 e 2018, tinham empresas com mais violações ambientais e trabalhistas do que fundos convencionais. O ex-diretor de investimentos sustentáveis da BlackRock, Tariq Fancy, também criticou a prática, classificando-a como “propaganda enganosa” e destacando que mudanças reais ainda são limitadas.
Apesar disso, o ESG segue como pauta estratégica em muitas companhias. No Brasil, por exemplo, o país lidera emissões de títulos verdes na América Latina — US$ 11 bilhões em 2024 — e o Fundo Clima do BNDES ampliou sua carteira de R$ 630 milhões em 2023 para R$ 10,4 bilhões em 2024, apoiando projetos de energia renovável e restauração ambiental.

Uma encruzilhada para empresas e investidores

O embate em torno do ESG revela mais do que diferenças ideológicas: trata-se de uma disputa por fluxos de capital. Empresas de energia e mineração se beneficiaram de legislações anti-ESG, recuperando espaço no mercado. Por outro lado, companhias que mantêm compromissos sustentáveis seguem atraindo consumidores e investidores sensíveis a reputação e inovação.
Analistas como Andrew Winston, da Harvard Business Review, destacam que as empresas estão diante de quatro tipos de críticos: os tradicionalistas interessados, os conservadores sociais, os críticos autênticos (que denunciam greenwashing) e os exploradores políticos. Ignorar esses movimentos pode representar riscos reputacionais e perda de competitividade global.

Conclusão: entre risco e oportunidade

O movimento anti-ESG, embora forte nos EUA, ainda não reflete uma rejeição mundial. Pelo contrário, em regiões como Europa e América Latina, cresce a regulação que obriga empresas a integrarem métricas ambientais e sociais em seus relatórios financeiros. No Brasil, a COP30 em Belém deverá reforçar a centralidade da agenda climática e dar novo fôlego às práticas sustentáveis.
Para empresários e empreendedores, a lição é clara: ESG não é moda, é gestão de risco e valor de longo prazo. Ao mesmo tempo em que o ambiente político pode gerar resistência, a demanda de consumidores, investidores e reguladores continua avançando. O desafio é separar discurso e prática, construindo estratégias transparentes, financeiramente viáveis e socialmente responsáveis.

Fontes

– Harvard Business Review
– Financial Times
– Wall Street Journal
– ESG Today
– JRI Research Journal
– Review of Accounting Studies
– BNDES – Fundo Clima
– Valor Econômico

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