Em plena segunda fase do seu plano de reestruturação, a Casas Bahia apresenta sinais concretos de recuperação operacional. O desempenho do primeiro trimestre de 2025 trouxe uma combinação de crescimento no volume de vendas, melhora na rentabilidade e avanço em iniciativas estratégicas voltadas para crediário e serviços financeiros.
A companhia, que tenta se reerguer após enfrentar dificuldades financeiras, viu o GMV (volume bruto de mercadorias) consolidado subir 10,2%, alcançando R$ 10,7 bilhões, enquanto a receita líquida chegou a R$ 6,9 bilhões. Ainda assim, o prejuízo segue elevado: R$ 468 milhões no trimestre, o que reforça que o desafio de voltar ao lucro ainda não foi superado.
Crescimento nas lojas físicas e controle de custos
Um dos principais destaques do trimestre foi o desempenho das lojas físicas, que cresceram 16,2% em relação ao mesmo período de 2024. Esse crescimento foi impulsionado principalmente pela consolidação do portfólio de linha branca, móveis e celulares, além de serviços agregados, como seguros.
“O mercado está estagnado, mas nós crescemos 17,7% em receita de mesmas lojas. Isso mostra a efetividade do nosso plano”, afirma Renato Franklin, CEO da Casas Bahia. Segundo ele, o crescimento não foi pontual: praticamente todos os indicadores da companhia apresentaram alta acima do consenso de analistas.
No digital, o avanço foi mais tímido: 2,4% no GMV do e-commerce, reflexo da limpeza de categorias com baixa margem de contribuição. “Cortamos diversas linhas de produto que não faziam sentido para o modelo. Agora, com uma base mais enxuta, teremos uma comparação mais justa a partir dos próximos trimestres”, explicou o executivo.
Credibilidade no crediário e foco em rentabilidade
A grande aposta da varejista agora está nos serviços financeiros. O CDC (crédito direto ao consumidor), por exemplo, já representa cerca de 10% do GMV digital, contra menos de 3% no primeiro trimestre de 2024. Um crescimento relevante, amparado pela captação de R$ 1 bilhão em um FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios), voltado para a expansão do crediário.
Com esse movimento, a empresa atingiu a marca de 2,3 milhões de clientes com crédito ativo, sendo 300 mil adicionados apenas em 2025. O objetivo, segundo Franklin, é oferecer soluções de financiamento mais acessíveis e aumentar o tíquete médio das compras — principalmente de celulares, que viram as vendas crescerem 20% no trimestre.
Essa expansão no crediário também favoreceu o desempenho das vendas de seguros, que vêm ganhando força diante do aumento dos casos de furto de celulares. Como resultado, a receita com serviços cresceu 11,9% no trimestre, enquanto as soluções financeiras subiram 18,4%.
Ebitda avança pelo sexto trimestre consecutivo
Outro dado positivo foi o Ebitda, que somou R$ 570 milhões, alta de 47% na comparação anual. A margem Ebitda chegou a 8,2%, contra 6,1% em igual período do ano passado, consolidando o sexto trimestre consecutivo de melhora nesse indicador.
De acordo com Franklin, o avanço é resultado direto do esforço de corte de custos e melhoria operacional. “Agora, o desafio é manter esse controle, ajustar de forma pontual e sustentar a alavancagem positiva.”
Parcerias estratégicas e novos produtos
No primeiro trimestre, a Casas Bahia firmou parceria com a chinesa Oppo, a quarta maior fabricante de celulares do mundo, e já se prepara para lançar, em maio, os modelos da também chinesa Jovi. A estratégia segue a tradição da rede em apresentar novas marcas ao consumidor brasileiro — como ocorreu com Apple (em 2013) e TCL no setor de TVs.
“Essas marcas têm grande apelo, e o crediário é essencial para facilitar o acesso. O consumidor quer novidade, e nós queremos que ele possa comprar sem comprometer o orçamento à vista”, destaca o CEO.
Outra iniciativa foi o lançamento de um novo cartão de crédito em parceria com a Brasilcard, previsto para atingir 1 milhão de emissões no primeiro ano. O produto será uma peça central do novo programa de fidelidade que deve estrear até o fim de 2025.
Dia das Mães e a retomada do consumo
Após um mês de março mais fraco, a varejista registrou sua melhor performance do ano durante o Dia das Mães, com um crescimento de 30% sobre a liquidação de janeiro, tradicionalmente forte no varejo. O resultado foi impulsionado tanto por lojas físicas quanto pelo reforço no canal online com foco em datas comemorativas.
A empresa também confirmou que superou a meta do período, o que reforça o otimismo para o segundo trimestre.
Próxima fase: expansão geográfica e crédito para parceiros
A terceira fase do plano de reestruturação da Casas Bahia está prevista para começar em 2026. Nessa etapa, o foco será a expansão física da rede, que hoje conta com 1.065 lojas (sendo 933 da Casas Bahia e 132 do Ponto Frio). A meta é abrir 200 novas unidades até 2028, reforçando a presença nacional.
Além disso, há planos de oferecer crédito também para fornecedores e sellers do marketplace, ampliando as receitas com serviços financeiros e gerando novas fontes de rentabilidade. “Vamos estruturar uma plataforma de crédito B2B para antecipação de faturas e capital de giro. Isso trará uma nova linha de lucro”, projeta Franklin.
Dívida sob controle e vitória na Justiça
Apesar da recuperação operacional, o endividamento segue como um ponto de atenção. A empresa ainda tem uma dívida de R$ 1,5 bilhão, sendo 40% atrelados a uma emissão de debêntures com Bradesco e Banco do Brasil. A partir de outubro de 2025, os credores poderão converter essa dívida em participação acionária, o que pode diluir os atuais acionistas, mas aliviar a pressão sobre o caixa.
Em paralelo, a empresa conseguiu uma vitória relevante na Justiça, com a liberação de R$ 632 milhões em créditos tributários, que devem ajudar no reforço de liquidez.
Na B3, os papéis da Casas Bahia acumulam alta de 78,17% no ano, com valor de mercado de R$ 483 milhões — ainda distante dos tempos de glória, mas em trajetória positiva.


