A recuperação da Americanas, empresa ainda marcada por um escândalo contábil de R$ 25 bilhões revelado no início de 2023, encontrou mais um obstáculo em sua tentativa de reerguimento. O balanço referente ao primeiro trimestre de 2025, divulgado no último dia 14 de maio, revelou resultados negativos impulsionados, entre outros fatores, por um efeito sazonal incomum: a antecipação da Páscoa para o mês de março.
Tradicionalmente considerada uma das datas comerciais mais importantes do calendário da empresa, a Páscoa deste ano foi deslocada para o final de março, dificultando as comparações com o mesmo período do ano anterior, quando a data caiu em abril. O impacto, segundo a própria varejista, foi significativo: as vendas da Páscoa representaram cerca de 32% da receita total das lojas físicas no trimestre.
Prejuízo bilionário e retração generalizada
Sem o impulso pleno da data sazonal, a receita líquida consolidada da Americanas caiu 17,4%, para R$ 3,05 bilhões. A empresa registrou um prejuízo líquido de R$ 496 milhões, revertendo o lucro de R$ 453 milhões reportado um ano antes. Na comparação, o primeiro trimestre de 2024 havia sido beneficiado por efeitos extraordinários ligados ao plano de recuperação judicial — que somaram cerca de R$ 1,3 bilhão.
O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) também veio negativo, em R$ 35 milhões, ante um resultado positivo de R$ 1,39 bilhão no mesmo período de 2024. Mesmo ajustado para excluir itens não recorrentes e os efeitos do processo de reestruturação, o indicador ficou negativo em R$ 20 milhões. A margem bruta caiu 4,1 pontos percentuais, para 29,1%.
Apesar da deterioração nos resultados, a Americanas buscou apresentar uma leitura alternativa: considerando os primeiros quatro meses do ano, as vendas em mesmas lojas subiram 14,2% em relação a 2024. Somente na Páscoa, o crescimento foi de 16%, com aumento de 8% no número de transações e ganho de 1,3 ponto percentual em participação de mercado.
“Não é desaceleração operacional”, afirma CFO
Na tradicional conversa com analistas, a CFO da companhia, Camille Faria, reforçou que o descasamento sazonal era previsto e que os números não indicam uma perda de tração do negócio. “A comparação por quadrimestre elimina o efeito do descasamento. Esse efeito já era esperado e planejado”, explicou. “Seguimos em nossa trajetória de melhoria, trimestre a trimestre.”
Faria também destacou a redução de 10,1% nas despesas gerais e administrativas, que totalizaram R$ 991 milhões, e a posição de caixa, de R$ 2,09 bilhões — dos quais R$ 863 milhões em caixa direto e R$ 1,2 bilhão em recebíveis de cartão.
A dívida bruta da Americanas somava R$ 1,8 bilhão, sendo praticamente toda composta por debêntures com vencimento entre quatro e cinco anos e carência até o segundo semestre de 2026. Há ainda um compromisso de R$ 484 milhões a serem pagos em até 60 parcelas, iniciadas em abril deste ano, referentes a obrigações anteriores à recuperação judicial.
Novos produtos e fidelização no radar
Para além dos números, a companhia também revelou algumas novas iniciativas estratégicas. Um dos destaques foi o lançamento de um cartão de crédito em parceria com a Brasilcard, que oferecerá acúmulo de pontos, descontos e parcelamento em até 12 vezes.
“Nossa expectativa é emitir um milhão de cartões nos primeiros doze meses”, afirmou Fernando Soares, COO da varejista. O cartão será uma das ferramentas centrais do novo programa de fidelidade da empresa, com relançamento previsto até o fim de 2025.
Com base no cartão, a empresa espera aprofundar o conhecimento sobre o comportamento dos consumidores, além de aumentar as vendas identificadas. Segundo Soares, quase 50% das compras em abril já foram realizadas por clientes identificados nas lojas físicas.
Galerias e maximização do metro quadrado
Dentro da estratégia de revitalização das lojas físicas, a Americanas também estreou o modelo “Conecta”, que consiste na abertura de pequenos pontos de serviços terceirizados dentro das lojas, reunindo produtos complementares ao mix da empresa.
O primeiro espaço é voltado para reparos e acessórios de celular, e já há dois novos parceiros contratados para futuras ativações. “Nosso objetivo é maximizar a rentabilidade por metro quadrado, aumentar frequência, recorrência e fidelização”, pontuou Soares.
GMV desaba e ações sentem o impacto
Mesmo com os esforços para mostrar sinais de recuperação, os números principais continuaram em queda. O GMV (volume bruto de mercadorias) total caiu 24,8%, para R$ 4,12 bilhões. O GMV físico recuou 21,1%, para R$ 3,12 bilhões, enquanto o digital teve retração ainda mais acentuada: queda de 60,9%, para R$ 360 milhões.
A recepção do mercado financeiro foi negativa. No dia seguinte à divulgação dos resultados, as ações da Americanas caíam 7,49%, cotadas a R$ 5,31. No acumulado de 2025, os papéis já haviam recuado 14,3%, conferindo à varejista um valor de mercado de apenas R$ 1,06 bilhão — reflexo do abalo de confiança desde a revelação da fraude contábil.
Recuperação longe do fim
Leonardo Coelho, CEO da companhia, reconheceu que o caminho ainda é longo. “Não vamos conseguir melhorar a Americanas do dia para a noite. Temos restrições de capital, da própria recuperação judicial e do tempo que ficamos fora do protagonismo”, disse. Ainda assim, reforçou o compromisso com a melhora gradual e com a entrega de resultados consistentes.
A trajetória da Americanas após a fraude bilionária segue sendo uma das mais observadas do varejo brasileiro. Se por um lado há esforço em retomar a confiança, por outro, os números ainda não convencem — nem o mercado, nem os investidores.


