Enquanto boa parte das gigantes do Vale do Silício recua em políticas de diversidade, equidade e inclusão (DE&I), a Apple adota a direção oposta. A empresa liderada por Tim Cook reafirmou seu compromisso com programas de diversidade e inclusão, em resposta direta a pressões de acionistas conservadores. A postura contrasta com recentes decisões de empresas como Meta, que descontinuaram iniciativas similares em meio a um novo cenário político nos Estados Unidos.
A Apple não apenas manteve suas políticas inclusivas, como também orientou seus acionistas a votarem contra uma proposta que exigia a eliminação dessas ações. A proposta, a ser votada em assembleia no dia 25 de fevereiro, foi apresentada pelo National Center for Public Policy Research (NCPPR) — um think tank conservador que usa sua participação acionária como ferramenta para influenciar as diretrizes de grandes corporações.
Embate em assembleia: diversidade sob ataque
O NCPPR argumenta que programas de DE&I trazem riscos legais e financeiros para a Apple, principalmente após a Suprema Corte dos EUA invalidar ações afirmativas raciais no ensino superior em 2023. A organização vem usando uma estratégia recorrente: adquire ações em grandes empresas para obter direito de voto e propor mudanças alinhadas com sua agenda ideológica.
Nos últimos anos, o NCPPR já tentou eliminar políticas progressistas de empresas como Bank of America, Amazon e Johnson & Johnson, e agora mira uma das empresas mais icônicas do mundo.
Em resposta, o conselho da Apple — que inclui seu CEO — rejeitou a proposta, afirmando que a sugestão representa uma tentativa de microgerenciar a companhia. Para o board, limitar o escopo de atuação da Apple em suas políticas de inclusão seria um erro estratégico e ético.
Um posicionamento histórico
A Apple não está apenas mantendo programas por pressão de imagem. Seu histórico comprova compromisso duradouro com inclusão e diversidade. Desde que Tim Cook, primeiro CEO abertamente gay de uma empresa Fortune 500, assumiu o comando, a empresa dobrou o número de profissionais de grupos sub-representados em sua força de trabalho global entre 2014 e 2023.
Além disso, a Apple investiu US$ 100 milhões em projetos de equidade racial em resposta aos protestos do movimento Black Lives Matter, criando centros de formação de desenvolvedores em comunidades negras em Detroit e Atlanta.
A empresa mantém ainda políticas de contratação e promoção não discriminatórias com base em orientação sexual, identidade de gênero, raça, etnia, religião, deficiência e status socioeconômico. Para a Apple, essas ações fazem parte de um sistema de compliance sólido e de uma cultura corporativa que transcende pressões externas.
Meta e o movimento anti-DE&I
O contraste com a Meta, empresa-mãe do Facebook e Instagram, é emblemático. Em janeiro de 2025, a companhia anunciou o fim de seus programas de diversidade, alegando “mudanças no cenário legal e político”. A decisão foi amplamente interpretada como um realinhamento estratégico com a agenda conservadora do então presidente Donald Trump, que reassumirá o cargo nos próximos dias.
Trump, notório crítico das big techs e do chamado movimento “woke”, já ameaçou processar executivos e eliminar benefícios fiscais de empresas que promovam políticas de diversidade.
A decisão da Meta causou desconforto em parte da comunidade empresarial e lançou dúvidas sobre a real motivação das mudanças, que coincidem com a tentativa de Mark Zuckerberg de se aproximar do novo governo para evitar sanções futuras.
Reações e implicações no mercado
A reação da Apple é vista por analistas como um sinal de resistência institucional em um ambiente adverso. Em um contexto de crescente polarização política e ataques às pautas ESG, manter programas de diversidade exige coragem e visão estratégica. Diversos investidores e fundos sustentáveis elogiaram a postura da Apple, destacando que empresas inclusivas tendem a ser mais resilientes, inovadoras e rentáveis.
Segundo relatório da McKinsey & Company, empresas com maior diversidade em cargos de liderança têm lucros até 36% superiores. Já dados da Harvard Business Review mostram que a diversidade aumenta a capacidade de resolução de problemas e melhora a retenção de talentos.
Especialistas apontam que a assembleia da Apple será um marco para outras corporações globais. Se a proposta conservadora for derrotada, sinalizará que a responsabilidade corporativa com a diversidade ainda encontra respaldo entre investidores institucionais, mesmo em um cenário político desfavorável.
Diversidade como princípio, não retórica
Para a Apple, manter programas de DE&I não é apenas uma escolha reputacional. É uma estratégia de longo prazo. Seus projetos de inclusão são integrados a metas de ESG, relatórios de impacto social e processos de inovação. A empresa investe em educação tecnológica para minorias, acessibilidade digital e liderança inclusiva como parte de sua cultura empresarial.
A divergência entre Apple e Meta reflete dois caminhos distintos: o da resistência ética e institucional e o da submissão a ventos políticos momentâneos. Ambas as decisões terão repercussões duradouras — não só nos EUA, mas no posicionamento global das empresas.
Fontes:
– Exame – “Na contramão do Vale do Silício, Apple levanta voz em defesa da diversidade”
– Human Rights Campaign
– McKinsey & Company – Diversity Wins
– Harvard Business Review
– The Guardian
– Bloomberg News
– Apple Inc. – Reports on Inclusion & Diversity
– U.S. Supreme Court Decision – Affirmative Action (2023)


