Economia Circular em Alta: Moda Sustentável Ganha Força e Gira Novos Negócios no Brasil

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Em um cenário global de preocupação crescente com os impactos ambientais e o consumo consciente, o Brasil começa a assistir à ascensão da moda circular, um movimento que vai além das passarelas e passa a moldar o comportamento do consumidor, os modelos de negócio e as estratégias de sustentabilidade no setor de vestuário. Práticas como o aluguel de roupas, brechós e o upcycling — reaproveitamento criativo de peças — estão deixando de ser alternativas de nicho para ocupar papel central em uma nova economia da moda.
Essa transformação se dá em um momento crucial: o setor têxtil é um dos que mais poluem no mundo, sendo responsável por cerca de 10% das emissões globais de carbono, segundo a ONU. No Brasil, os dados também chamam atenção. Estima-se que cerca de 170 mil toneladas de roupas são descartadas anualmente, muitas vezes sem tratamento adequado. Nesse contexto, o consumo consciente e os modelos de economia circular surgem como resposta urgente e eficaz.

Aluguel de roupas: conveniência, economia e sustentabilidade

Um dos segmentos que mais cresce dentro da moda circular é o aluguel de roupas, antes restrito a trajes de gala, mas que hoje abrange peças casuais, looks corporativos e até moda fitness. A startup Social Express, especializada em roupas masculinas para eventos, é um exemplo notável. Com atuação nacional, a empresa registrou um crescimento de 30% no faturamento entre 2023 e 2024, além de conquistar 3.800 novos clientes no último ano.
Segundo o CEO da marca, Eduardo Figueiredo, o segredo está na combinação entre praticidade, personalização e valor percebido. “O consumidor está mais exigente e menos disposto a comprar peças que serão usadas uma ou duas vezes. O aluguel atende essa demanda com qualidade e consciência ambiental”, explica.
O mercado de aluguel, além de reduzir a necessidade de produção em massa, permite reutilização eficiente de peças, prolongando o ciclo de vida das roupas e reduzindo o descarte precoce.

Brechós modernos: o renascimento da segunda mão

Os brechós também passaram por uma reinvenção. De espaços desorganizados e estigmatizados, passaram a ocupar ambientes modernos, com curadoria estética e forte presença digital. Plataformas como Enjoei, TROC e Repassa se popularizaram e foram integradas a grandes players do varejo, como o Grupo Boticário e a Renner.
Segundo estimativas da consultoria ThredUp, o mercado de segunda mão no Brasil deve movimentar R$ 78 bilhões até 2027, englobando tanto operações físicas quanto online. Esse salto se dá graças a uma nova geração de consumidores, especialmente os millennials e a geração Z, que valorizam propósito, exclusividade e responsabilidade social na hora de consumir.
O brechó moderno não é apenas uma forma de consumo mais barata — é um manifesto de estilo e posicionamento de mundo.

Upcycling: moda com propósito e criatividade

Outra prática que se destaca no universo da moda circular é o upcycling, que consiste em transformar roupas usadas ou descartadas em novas peças, com valor agregado. A técnica vai além da customização: ela envolve design, inovação e consciência ambiental.
Grifes como Farm, Insecta Shoes e Ahlma já adotam o upcycling em parte de suas coleções. Há também um movimento crescente de marcas independentes e ateliês locais que fazem do reaproveitamento sua base criativa. O resultado são peças únicas, produzidas com resíduos que teriam como destino os aterros.
O upcycling traz benefícios sociais, ambientais e econômicos. Segundo o Instituto Akatu, cada tonelada de roupa reaproveitada evita a emissão de até 20 toneladas de CO₂ na atmosfera, além de reduzir drasticamente o uso de água e energia.

Consumo consciente: tendência ou mudança definitiva?

Mais do que uma tendência passageira, a moda circular representa uma mudança estrutural no comportamento do consumidor. A pesquisa Global Consumer Insights Survey 2024, da PwC, aponta que 42% dos brasileiros já evitam comprar de marcas que não demonstram compromisso com a sustentabilidade. Além disso, 38% disseram preferir empresas que oferecem produtos reutilizados, recicláveis ou com impacto ambiental reduzido.
Essa mudança é também percebida nos grandes centros urbanos, onde feiras de brechó, lojas colaborativas e eventos de troca de roupas vêm se multiplicando. Projetos como o “Roupa Livre”, por exemplo, promovem eventos de escambo de peças em São Paulo, conectando consumo consciente com engajamento comunitário.

Desafios do setor e necessidade de regulamentação

Apesar do crescimento, o setor de moda circular ainda enfrenta desafios estruturais. A informalidade é grande entre os brechós, e faltam linhas de crédito específicas, incentivos fiscais e políticas públicas que estimulem esse tipo de economia regenerativa. Especialistas defendem a criação de um marco regulatório para economia circular da moda, que inclua incentivos para práticas sustentáveis e penalidades para o descarte irregular.
Também é necessário maior investimento em educação de mercado, tanto para consumidores quanto para produtores, especialmente no que diz respeito à valorização de peças reutilizadas e ao combate ao preconceito ainda existente em torno do uso de roupa de segunda mão.

Perspectivas futuras: moda como vetor de impacto positivo

Se os últimos anos foram de adaptação, os próximos prometem ser de consolidação. A expectativa é que o Brasil se torne referência na América Latina em moda circular, combinando iniciativas públicas, inovação empresarial e engajamento social.
Marcas que souberem integrar propósito com rentabilidade, design com reaproveitamento e escala com personalização terão mais chances de prosperar. Afinal, a moda do futuro não será apenas bonita — ela será justa, consciente e regenerativa.

Fontes :

– CartaCapital
– Fitec Ambiental
– Instituto Akatu
– PwC – Global Consumer Insights Survey 2024
– Correio Braziliense
– Enjoei, Repassa, TROC (dados institucionais)
– ThredUp Report
– Instituto Lixo Zero

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