Diante do avanço de políticas conservadoras nos Estados Unidos e do crescente ataque a iniciativas de diversidade e inclusão, um conjunto de mais de 500 empresas brasileiras decidiu se posicionar de maneira firme e pública. No início de 2025, foi lançado o manifesto intitulado “Um Compromisso Inabalável com o Futuro”, documento que reafirma o compromisso dessas organizações com práticas de inclusão racial, equidade de gênero, respeito à população LGBTQIA+ e promoção da diversidade geracional e de pessoas com deficiência no ambiente corporativo.
A ação é liderada por uma coalizão de importantes entidades da sociedade civil e do setor privado, como o Movimento Mulher 360, o Fórum de Empresas e Direitos LGBTI+, a Rede Empresarial pela Inclusão Social, a Iniciativa Empresarial pela Igualdade Racial, o Fórum Gerações e Futuro do Trabalho, o Mover, o Pacto pela Equidade Racial e o Instituto Ethos.
Reação a Trump e retrocesso internacional
O manifesto surge como reação direta à onda de retrocessos observada nos Estados Unidos, onde diversas empresas – como Meta, McDonald’s e Amazon – recuaram ou descontinuaram programas internos de diversidade. A guinada foi estimulada por discursos e ações do ex-presidente Donald Trump, que classificou as políticas de diversidade como ilegais e parte de uma suposta “ideologia radical”.
A política de Trump e o movimento conservador nos EUA têm pressionado empresas a abandonarem suas iniciativas de ESG, especialmente no que tange à pauta social. Essa reação, amplificada por ações judiciais e campanhas públicas, tem levado grandes corporações a silenciarem sobre inclusão, racialidade e equidade de gênero.
No entanto, no Brasil, o cenário parece ser diferente – e o manifesto mostra que há força institucional para resistir e avançar.
Diversidade como pilar estratégico
O texto do manifesto defende que a diversidade não é apenas uma pauta moral ou humanitária, mas um vetor de inovação, performance e sustentabilidade corporativa. “Empresas inclusivas tomam melhores decisões, inovam mais e representam melhor a sociedade em que atuam”, aponta o documento.
Essa visão é respaldada por estudos como o da consultoria McKinsey & Company, que indicam que empresas com maior diversidade étnico-racial e de gênero em cargos de liderança têm lucros até 35% superiores em relação à média de seus setores. Outro estudo da Deloitte reforça que ambientes diversos promovem maior engajamento e retenção de talentos, além de impulsionar a reputação da marca.
Natura, Carrefour e outras vozes da resistência
Entre as empresas signatárias, destacam-se grandes corporações como Natura, Carrefour, Magazine Luiza, Heineken, Accenture, Vivo, Ambev e BASF, que já mantêm há anos políticas estruturadas de diversidade e inclusão.
A Natura, por exemplo, foi reconhecida em 2024 como a empresa mais sustentável do Brasil pelo ranking Merco e adota políticas ativas para contratar pessoas negras, indígenas, LGBTQIA+ e mulheres em posições de liderança. Já o Carrefour reforçou seu compromisso com ações afirmativas e treinamento antirracista após os episódios de violência em suas lojas em 2020.
Além disso, empresas como o iFood, que em 2022 implementou cotas raciais para cargos de tecnologia, também aparecem entre os apoiadores.
Diversidade no Brasil: um campo de potencial e urgência
Apesar do engajamento crescente de grandes empresas, o Brasil ainda apresenta graves desigualdades estruturais. Segundo dados do IBGE:
– Pessoas negras representam 56% da população, mas apenas 6% dos executivos nas 500 maiores empresas.
– Mulheres ocupam menos de 15% das cadeiras em conselhos de administração.
– Pessoas com deficiência representam menos de 1% da força de trabalho em empresas privadas, mesmo com legislação que exige cotas.
O manifesto, portanto, busca incentivar também pequenas e médias empresas a incorporarem políticas de inclusão, com apoio técnico das organizações signatárias. Além disso, pressiona o poder público a não retroceder nas garantias legais conquistadas nos últimos 20 anos.
Uma agenda propositiva e estruturada
A iniciativa vai além da reação a Trump: propõe um plano de ação baseado em cinco eixos estratégicos:
1. Governança inclusiva – fortalecimento de conselhos e lideranças diversas;
2. Treinamento contínuo – capacitação de líderes e RH em viés inconsciente e justiça social;
3. Metas e indicadores – acompanhamento de dados de diversidade e equidade;
4. Iniciativas interseccionais – abordagem integrada de gênero, raça, deficiência, orientação sexual e geração;
5. Comunicação e engajamento – posicionamento público ativo e combate à desinformação.
Segundo o Instituto Ethos, a proposta é que o manifesto não seja apenas simbólico, mas sirva como instrumento de transformação concreta dentro das empresas.
Fontes :
– Estadão:
– UOL Notícias
– Instituto Ethos
– Fórum de Empresas e Direitos LGBTI+
– McKinsey & Company – Diversity Wins
– Deloitte Insights – Global Diversity & Inclusion Report


